Não é nada não, vinha eu respondendo ao que jeito
estranho era aquele o meu, é que me ocorreu uma coisa...
E então encarei os olhos dela, nem sei por quanto tempo. Eram olhos de indefinição medrosa. Clamavam por amparo. Embora ansiosos por chamar de lar qualquer caminho cujo sentido eu lhes ofertasse, dispostos a mantê-lo impecável, coroando inclusive de flores a mesa posta, não era uma proposta de comunhão que anunciavam, mas de domínio.
E então encarei os olhos dela, nem sei por quanto tempo. Eram olhos de indefinição medrosa. Clamavam por amparo. Embora ansiosos por chamar de lar qualquer caminho cujo sentido eu lhes ofertasse, dispostos a mantê-lo impecável, coroando inclusive de flores a mesa posta, não era uma proposta de comunhão que anunciavam, mas de domínio.
Os olhos através das lentes dos óculos novos, recém-trocados. Na calçada em frente à ótica, enquanto esperava por ela, flagrei meu próprio reflexo na vitrine. Notei minhas costas arqueadas projetando o longo pescoço que sustinha as faces paralelas a contragosto. Parecia um rosto pendurado, a ponto de cair a qualquer momento. Não se tratava de um espelho propriamente, mas minha atenção me furtou qualquer das coisas que ali se mostravam para evidenciar a silhueta de uma época expressa naquele trecho de escultura. “Claro, não tira o olho do chão”, ela me adverte no caminho, quando distraído passo indiferente por gente que me saudava. “Tira o olho do chão”, sussurrei, ainda mirando a figura parcamente refletida no espelho nublado.
O simples movimento e repouso de um bípede adulto. Desentortei
minha postura e testemunhei a figura engrandecer. Imaginei um serzinho
constituído apenas de olhos e pés, tão próximos que estes não eram vistos por
aqueles. Primeiro olhos enormes e enxeridos guiando passos breves e ligeiros de
pés pequeninos. Em seguida pensei em pés enormes indisfarçáveis carregando
olhinhos inseguros. Voltei à posição de antes: ridícula. Qualquer um era capaz
de medi-la, mas me escapava durante boa parte do tempo. Ergui-me novamente,
depois me curvei e me ergui. Fiquei repetindo esse movimento algumas vezes,
como numa espécie de “morto – vivo – morto – vivo”, solitário e de improviso. Lembrei
que estava na rua e decidi interromper a brincadeira. Parei na posição ereta.
Em alguns segundos senti que mantê-la exigiria um esforço monástico.
Entendi que a coluna torta era a causa de minha atenção se voltar exageradamente para meus passos e acabar deixando passar à margem possíveis encontros. Era preciso me endireitar, portanto, fazer os olhos conversarem com os outros olhos.
Entendi que a coluna torta era a causa de minha atenção se voltar exageradamente para meus passos e acabar deixando passar à margem possíveis encontros. Era preciso me endireitar, portanto, fazer os olhos conversarem com os outros olhos.